Jardim de Deméter

Mitos gregos que brotam da terra

Sob a terra

Perséfone entre o narciso e a romã

Uma flor como armadilha, uma semente como contrato

Plantado em 5 min de leitura

Ilustração em aquarela e nanquim no estilo de prancha botânica antiga: Perséfone segura uma romã partida entre o mundo de cima e a sombra do mundo subterrâneo.

O mais antigo relato completo do rapto de Perséfone começa num prado. A moça brinca com as filhas de Oceano e colhe flores: rosas, açafrões, violetas, íris, jacintos. Então vê um narciso diferente de todos, que a Terra fizera brotar por vontade de Zeus, para agradar a Hades. Quando ela estende as duas mãos para colhê-lo, o chão se abre na planície de Nisa e o senhor dos mortos surge num carro de cavalos imortais. O poema que conta isso, o Hino homérico a Deméter, foi composto provavelmente entre os séculos VII e VI a.C., e nele as plantas não são enfeite: decidem o enredo. Uma flor serve de isca, uma semente vira contrato, e a fome de uma deusa deixa a terra sem colheita.

Uma flor plantada como armadilha

Perséfone, que o hino chama também de Core, “a moça”, é filha de Zeus e de Deméter, a deusa do trigo. Hesíodo, na Teogonia, já resume o episódio em poucos versos: Hades a levou, e Zeus consentiu. O hino desenvolve a cena e se demora justamente no narciso, descrito como um prodígio.

Era uma flor de brilho espantoso, assombro para quem a visse, deuses imortais ou homens mortais: de sua raiz brotavam cem cabeças, e com seu perfume riam o vasto céu lá no alto, a terra inteira e o mar salgado.

Hino homérico a Deméter (tradução nossa)

Que flor seria essa? Os gregos chamavam de nárkissos plantas do gênero que ainda leva o nome, e as “cem cabeças” combinam com espécies de muitas flores por haste, comuns no Mediterrâneo. Plutarco aproximava o nome da palavra nárke, torpor, por causa do perfume pesado; é uma etimologia antiga, provavelmente fantasiosa, mas reveladora: o narciso era a flor que entorpece. No hino, ele tem função precisa. Hades não precisa perseguir a moça pelo campo; basta que ela se abaixe para colher.

Ovídio, nas Metamorfoses, leva a cena para a Sicília, perto de Ena, à beira do lago Pergo, onde Prosérpina, o nome latino de Perséfone, colhe violetas e lírios brancos. Quando o deus a agarra, as flores escapam da túnica solta e caem no chão, e o poeta observa que a menina, na sua inocência, sofreu também por essa perda. É um detalhe mínimo e certeiro: a última coisa que ela perde no mundo de cima é um punhado de flores.

O luto de Deméter e a terra sem sementes

Ninguém viu o rapto, a não ser Hécate, que ouviu o grito de dentro de sua gruta, e Hélio, o Sol, que tudo vê. Durante nove dias Deméter percorre a terra com tochas acesas, sem provar ambrosia nem néctar. Quando sabe por Hélio que Zeus consentiu, abandona o Olimpo e, disfarçada de velha, senta-se junto a um poço em Elêusis. As filhas do rei Céleo a levam para casa. Lá, uma serva chamada Iambe consegue arrancar dela o primeiro sorriso com seus gracejos; depois, a rainha Metanira lhe oferece vinho, e a deusa recusa. Pede outra coisa: uma bebida de farinha de cevada, água e poejo, o kykeón.

Deméter passa a cuidar do filho pequeno da casa, Demofonte, e tenta torná-lo imortal, ungindo-o com ambrosia e escondendo-o à noite no fogo. Metanira vê a cena e grita; a deusa se revela, exige um templo e se fecha nele. Então vem o golpe mais grave: ela impede que as sementes brotem. Os bois puxam o arado em vão, a cevada branca cai na terra e não nasce, e a humanidade inteira teria morrido de fome, deixando os deuses sem sacrifícios, se Zeus não cedesse. Primeiro ele envia Íris, depois todos os deuses com presentes, e por fim Hermes, que desce para buscar Perséfone.

A romã: uma semente que vale um contrato

Hades obedece, mas antes dá à esposa, às escondidas, uma semente de romã doce como mel. Mais tarde, contando tudo à mãe, Perséfone diz que foi forçada a comê-la. O resultado é o mesmo: quem come no mundo dos mortos fica preso a ele. Por isso ela passará um terço do ano debaixo da terra e os outros dois terços com a mãe e os deuses. Quando a terra se cobrir das flores perfumadas da primavera, diz o hino, ela voltará.

As versões divergem nos números. Ovídio fala em sete sementes, comidas num pomar do mundo subterrâneo e denunciadas por Ascálafo, que acaba transformado em coruja; e, em vez de um terço, Júpiter divide o ano em duas metades iguais. Apolodoro, na Biblioteca, mantém Ascálafo como testemunha, mas conta que Deméter o castigou pondo sobre ele uma rocha pesada. Também se discute em que estação Perséfone fica embaixo. Muitos leitores pensam no inverno; alguns estudiosos lembram que, na Grécia, o verão seco é o tempo em que o grão colhido fica guardado sob a terra, em silos, à espera da semeadura de outono. O hino não resolve a questão.

A escolha da fruta não parece casual. A romã, com suas centenas de sementes vermelhas, era imagem de fartura e de casamento: a grande estátua de Hera em Argos segurava uma, e Pausânias, que a viu, preferiu não contar a história, que considerava sagrada demais. Para Perséfone, o fruto do matrimônio é também o que a amarra a um marido que ela não escolheu. Você encontra a romã e o narciso, ao lado de outras seis plantas, em nosso catálogo de plantas.

Rainha dos mortos, senhora das plantas

Perséfone não é só vítima. Na Odisseia, ela já é a rainha temida que governa as sombras, e é diante dela que Orfeu canta para pedir Eurídice de volta. Em Ovídio, aparece transformando uma ninfa chamada Minta na hortelã perfumada; outras fontes explicam que a ninfa era uma rival, desejada por Hades. Apolodoro conta ainda que Afrodite lhe confiou o pequeno Adônis, escondido num baú, e que Perséfone não quis devolvê-lo: Zeus precisou dividir o ano do rapaz entre as duas deusas. De novo o calendário, de novo a partilha entre o mundo de cima e o de baixo.

Em Elêusis, o mito virou rito. Os Mistérios celebrados ali durante séculos reencenavam a busca de Deméter e a volta da filha, e os iniciados juravam segredo. Um autor cristão do século III d.C. afirma que o momento culminante era a exibição de uma espiga de trigo ceifada, em silêncio; não há como confirmar, mas a imagem combina com tudo o que o hino conta. Muito depois, o folclore grego continuaria imaginando o subsolo como lugar de ciclos que se repetem todo ano, como mostram os kallikantzaroi e sua árvore serrada debaixo da terra.

Talvez por isso o mito continue tão vivo. Ele fala de uma perda que não se desfaz por inteiro, apenas se negocia. Perséfone volta, mas volta diferente, e cada primavera carrega o gosto de uma semente comida no escuro.

Raízes antigas

  1. Hinos homéricos, Hino a Deméter
  2. Hesíodo, Teogonia 912–914
  3. Homero, Odisseia livros 10–11
  4. Ovídio, Metamorfoses 5.341–571; 10.728–730
  5. Apolodoro, Biblioteca 1.5.1–3; 3.14.4
  6. Pausânias, Descrição da Grécia 2.17.4

No canteiro ao lado

Heróis

Orfeu e o bosque que veio escutar

Carvalhos que descem da montanha, uma serpente escondida na relva, um bosque inteiro que se reúne em volta de uma lira: o mito de Orfeu é cheio de plantas que escutam.

5 min de leitura

Folclore vivo

Os kallikantzaroi e a árvore que segura o mundo

O ano inteiro eles serram, debaixo da terra, o tronco que sustenta o mundo. No Natal sobem pelas chaminés; na Epifania fogem da água benta. Um folclore grego de inverno.

6 min de leitura