Catálogo botânico
Plantas e mitos
Oito plantas que aparecem nos mitos gregos, apresentadas como numa prancha de herbário: nome científico, mito, divindade e um breve comentário. As ilustrações foram criadas especialmente para este site, à maneira das gravuras botânicas do século XIX, e não reproduzem obras antigas. Quando a identificação de uma planta antiga é incerta, como no caso do jacinto, dizemos isso no próprio verbete.

Louro
Laurus nobilis
- Mito
- Apolo e Dafne
- Divindade
- Apolo
Nas Metamorfoses, Ovídio conta que Dafne, filha do rio Peneu, fugiu de Apolo até o limite das forças e pediu ao pai que lhe tirasse a forma que tanto atraía o deus. Os pés viraram raízes, os braços, galhos, e os cabelos, folhagem. Sem poder tê-la como esposa, Apolo fez dela a sua árvore: o louro passou a coroar poetas, generais vitoriosos e os vencedores dos Jogos Píticos, em Delfos. As folhas aromáticas que hoje temperam o feijão guardam esse antigo brilho de prêmio.

Romã
Punica granatum
- Mito
- O rapto de Perséfone
- Divindade
- Perséfone e Hera
Quem come no mundo dos mortos fica ligado a ele. No Hino homérico a Deméter, Hades dá a Perséfone, às escondidas, uma semente de romã doce como mel, e por isso ela precisa passar parte do ano debaixo da terra; Ovídio fala em sete sementes. A fruta também estava na mão da grande estátua de Hera em Argos, mas Pausânias, que a viu, preferiu calar a história, que considerava sagrada demais. Aberta, a romã mostra centenas de sementes vermelhas: fartura e prisão no mesmo fruto.
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Narciso
Narcissus poeticus
- Mito
- Narciso e Eco; o rapto de Perséfone
- Divindade
- Gaia e Hades
Duas histórias disputam esta flor. Em Ovídio, o belo Narciso se apaixona pelo próprio reflexo numa fonte e definha à beira da água; no lugar do corpo, as ninfas encontram uma flor de miolo cor de açafrão cercado de pétalas brancas, descrição que lembra bem o Narcissus poeticus. No Hino homérico a Deméter, a Terra faz brotar um narciso de cem cabeças para atrair Perséfone, e é ao estender a mão para ele que a moça é levada por Hades.
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Oliveira
Olea europaea
- Mito
- A disputa pela Ática
- Divindade
- Atena
Atena e Posêidon disputaram a Ática. Segundo Apolodoro, Posêidon golpeou a Acrópole com o tridente e fez surgir uma fonte de água salgada; Atena plantou ali a primeira oliveira, e a vitória foi dela. Heródoto conta que essa árvore sagrada, junto ao templo de Erecteu, foi queimada pelos persas em 480 a.C. e que, logo no dia seguinte, já tinha brotado do tronco um ramo de um côvado. Nas Panateneias, os vencedores recebiam ânforas cheias do azeite das oliveiras sagradas.

Jacinto
Hyacinthus orientalis
- Mito
- Apolo e Jacinto
- Divindade
- Apolo
Jacinto, jovem de Amiclas, perto de Esparta, morreu atingido pelo disco que Apolo lançara; autores mais tardios culpam o vento Zéfiro, enciumado, por ter desviado o golpe. Do sangue nasceu uma flor em que o deus escreveu o próprio lamento, AI AI, segundo Ovídio. O jacinto dos jardins de hoje, vindo da Ásia, não traz essas marcas, e o hyákinthos antigo talvez fosse outra planta, como uma espora, um íris ou um lírio. Em Amiclas, os espartanos celebravam todo ano as Jacíntias.

Anêmona
Anemone coronaria
- Mito
- A morte de Adônis
- Divindade
- Afrodite
Adônis, o caçador amado por Afrodite, foi ferido de morte por um javali. Em Ovídio, a deusa derrama néctar sobre o sangue do rapaz e dali brota uma flor da cor da romã, que dura pouco: os mesmos ventos que lhe dão o nome derrubam suas pétalas frágeis, já que ánemos, em grego, é vento. Apolodoro acrescenta que Afrodite e Perséfone disputaram Adônis ainda menino, e que Zeus dividiu o ano dele em três partes, uma para cada deusa e outra para ele próprio.

Hera
Hedera helix
- Mito
- Dionísio e os piratas
- Divindade
- Dionísio
Não é a deusa: é a trepadeira que os gregos chamavam kissós, sempre verde e inseparável de Dionísio. O deus e suas seguidoras usavam coroas de hera, e o tirso, feito de um talo de férula, terminava em folhas de hera ou numa pinha. Nas Metamorfoses, quando piratas tentam levar o jovem Baco como prisioneiro, a hera se enrosca nos remos e prende o navio, pouco antes de os marinheiros virarem golfinhos. Eurípides, em As fenícias, canta a hera que cobriu o deus ainda bebê.

Papoula
Papaver somniferum
- Mito
- Deméter e o sono
- Divindade
- Deméter e Hipno
Teócrito encerra um de seus idílios com a imagem de Deméter sorrindo, com feixes de trigo e papoulas nas duas mãos, e muitas imagens antigas a mostram assim: a papoula cresce no meio do trigal e tem a cápsula cheia de sementes. A espécie Papaver somniferum dá o ópio, e por isso a flor também pertence ao sono. Ovídio põe papoulas diante da gruta do Sono, que os gregos chamavam Hipno, e diz que é do sumo delas que a Noite colhe o torpor para espalhar sobre a terra.