Heróis
Orfeu e o bosque que veio escutar
Quando as árvores andaram para ouvir uma lira

Ovídio conta que, depois de perder Eurídice pela segunda vez, Orfeu se senta num morro descampado, sem nenhuma sombra. Quando começa a tocar, a sombra vem até ele. Chegam o carvalho de Caônia, árvore de Júpiter, e os choupos em que se transformaram as irmãs de Faetonte; chegam as tílias macias, a faia, o loureiro ainda virgem, as aveleiras frágeis, o freixo bom para lanças, o abeto liso, a azinheira carregada de bolotas, o plátano, o bordo, os salgueiros das margens, o buxo sempre verde, a tamargueira, a murta, a hera, a videira, o olmo abraçado pelas parreiras, o pinheiro e, por fim, o cipreste. Poucas passagens da poesia antiga parecem tanto um jardim botânico. E poucas mostram tão bem o que os gregos e romanos imaginavam do poder de Orfeu: uma música que não apenas encanta, mas desloca o mundo vegetal inteiro.
Filho de uma musa, tripulante do Argo
Orfeu é trácio, filho da musa Calíope e de Eagro, um rei da Trácia; Apolodoro registra que alguns lhe davam Apolo como pai. O nome já aparece no século VI a.C., quando o poeta Íbico fala do “famoso Orfeu”, e logo ele se torna o músico por excelência, aquele que inventou ou aperfeiçoou o canto com a lira.
Antes de ser o marido de Eurídice, ele é um dos argonautas. Apolônio de Rodes abre o catálogo dos heróis do Argo com o seu nome e explica por que Jasão o quis a bordo: com o canto, Orfeu encantava as rochas das montanhas e o curso dos rios. Os carvalhos selvagens que ele trouxe da Piéria tocando a lira, diz o poeta, ainda se erguem em fileiras ordenadas em Zona, no litoral da Trácia. Mais adiante na viagem, é a lira de Orfeu que cobre a voz das sereias e salva a tripulação. Antes de comover os mortos, portanto, ele já movia florestas.
A serpente escondida na relva
A história da esposa perdida chegou até nós sobretudo por dois poetas latinos, Virgílio, nas Geórgicas, e Ovídio, nas Metamorfoses, e ambos começam com plantas. Em Virgílio, Eurídice foge do pastor Aristeu pela beira de um rio e não vê, na relva alta, uma enorme serpente d’água. Em Ovídio, ela passeia por um prado com as náiades, logo depois do casamento, quando uma cobra a morde no tornozelo. O perigo, nos dois casos, está escondido entre a vegetação, como o narciso que atraiu Perséfone para o mundo subterrâneo.
Orfeu desce ao reino dos mortos pela passagem de Tênaro e canta diante de Hades e Perséfone. Ovídio descreve o efeito: Tântalo para de buscar a água que lhe foge, a roda de Íxion fica imóvel, Sísifo se senta sobre a pedra e as Fúrias choram pela primeira vez. Os soberanos dos mortos concedem a volta de Eurídice com uma única condição: Orfeu não pode olhar para trás antes de sair dos vales do Averno. Perto da saída, com medo de que ela estivesse cansada e ansioso para vê-la, ele olha. Eurídice escorrega de volta para a escuridão e, diz Ovídio, não se queixa: do que poderia se queixar, senão de ter sido amada?
Nem todos os autores antigos contam o mesmo final. Na Alceste de Eurípides, uma alusão a Orfeu parece supor que ele trouxe a esposa de volta. Platão, no Banquete, dá uma versão amarga: os deuses lhe mostraram apenas um fantasma da mulher, porque ele, um tocador de cítara, não ousou morrer por amor e tentou entrar vivo no Hades. Até o nome da esposa varia: Eurídice é o que se firmou, mas há fontes gregas que a chamam de outra forma ou nem lhe dão nome.
A floresta que se reuniu
Depois da segunda perda, Ovídio conta que Orfeu passou sete dias sentado à margem do rio dos mortos, sujo e “sem o dom de Ceres”, isto é, sem comer pão. Virgílio fala em sete meses de pranto sob um rochedo à beira do Estrimão, amansando tigres e arrastando carvalhos com o canto. Então vem a cena do morro sem sombra e do bosque que se reúne para ouvir.
O cipreste, aliás, encerra a lista por um motivo. A história seguinte é a de Ciparisso, que matou sem querer o cervo que amava e pediu aos deuses para chorar para sempre; Apolo o transformou na árvore que se planta junto aos túmulos. É como se a própria floresta viesse fazer companhia ao luto do cantor.
A cabeça no rio e as mulheres que viraram carvalhos
O fim de Orfeu também passa pelas plantas. No livro 11 das Metamorfoses, as mulheres dos cícones, seguidoras de Baco, o atacam enquanto ele canta para as feras, as pedras e as árvores. As primeiras pedras caem a seus pés, vencidas pela música, mas o barulho dos tambores, das flautas e dos gritos abafa a lira. Elas usam tirsos enfeitados de folhas verdes, que não tinham sido feitos para isso, e as enxadas, os ancinhos e as picaretas largados pelos lavradores em fuga. As árvores que ele havia comovido perdem as folhas, como quem corta os cabelos em sinal de luto.
A cabeça e a lira descem o rio Hebro até o mar e chegam à ilha de Lesbos.
A própria voz e a língua já fria chamavam Eurídice, “ah, pobre Eurídice!”, enquanto a vida fugia, e as margens repetiam “Eurídice” ao longo de todo o rio.
Virgílio, Geórgicas (tradução nossa)
Em Ovídio, uma serpente tenta morder a cabeça na praia de Lesbos e Febo a transforma em pedra, em um gesto que lembra o olhar de Medusa, cuja cabeça também continuou agindo depois de cortada. A sombra de Orfeu reencontra Eurídice nos campos dos bem-aventurados; agora os dois caminham juntos, e ele pode olhar para trás sem perigo. Quanto às assassinas, Baco não perdoa a morte do seu sacerdote: os dedos dos pés delas se alongam em raízes, as pernas viram tronco, e elas se transformam em carvalhos.
Pausânias, já no século II d.C., registra mais de um lugar que dizia guardar o túmulo do cantor, e uma tradição segundo a qual os rouxinóis que fazem ninho perto dele cantam mais bonito do que os outros. Do morro sem sombra ao bosque de carvalhos que antes eram mulheres, o mito de Orfeu terminou plantando uma floresta inteira. Algumas dessas árvores, como o louro e a hera, estão em nosso catálogo de plantas.
Raízes antigas
- Apolônio de Rodes, Argonáuticas 1.23–34
- Platão, O banquete 179d
- Virgílio, Geórgicas 4.453–527
- Ovídio, Metamorfoses 10.1–142; 11.1–84
- Apolodoro, Biblioteca 1.3.2
- Pausânias, Descrição da Grécia 9.30

