Monstros
Medusa e o jardim de pedra
A górgona que transformava algas em coral

Depois de cortar a cabeça de Medusa e salvar Andrômeda do monstro marinho, Perseu vai lavar as mãos no mar. Antes, porém, precisa apoiar em algum lugar a cabeça cheia de serpentes, que continua transformando em pedra tudo o que encara. Ovídio, nas Metamorfoses, conta que o herói forrou a areia com folhas e com os ramos macios que nascem debaixo d’água, para que o chão áspero não machucasse aquele rosto terrível. Os ramos absorveram o poder do monstro e endureceram. As ninfas do mar, encantadas, repetiram a experiência com outros ramos e espalharam as sementes pelas ondas. É assim, diz o poeta, que nasce o coral. O último capítulo da história de Medusa é uma metamorfose botânica: ramos macios que viram pedra.
Três irmãs à beira da noite
A apresentação mais antiga das górgonas está na Teogonia de Hesíodo, por volta de 700 a.C. Elas são filhas de Fórcis e Ceto, divindades marinhas muito antigas, e moram além do rio Oceano, no limite da noite, perto das Hespérides de voz clara. São três: Esteno, Euríale e Medusa. As duas primeiras são imortais e não envelhecem; Medusa é mortal, e essa diferença decide tudo.
O poeta não descreve o rosto nem os cabelos. Diz apenas que Posêidon se deitou com ela “num prado macio, entre flores de primavera”, e que, quando Perseu lhe cortou a cabeça, saltaram do pescoço Crisaor e o cavalo Pégaso, cujo nome Hesíodo liga às fontes, pēgaí, do Oceano, onde ele nasceu. A primeira Medusa da literatura grega, portanto, aparece num cenário de campo florido, e não num templo ou numa caverna. A cena que muita gente hoje considera central, a do santuário de Atena, só aparece por escrito muitos séculos depois.
A beleza castigada, segundo Ovídio
É Ovídio quem conta a versão mais citada atualmente. Num banquete, alguém pergunta a Perseu por que só Medusa, entre as irmãs, tinha serpentes nos cabelos. O herói responde que ela fora belíssima, disputada por muitos pretendentes, e que nada nela era mais admirado do que a cabeleira. O deus do mar a violentou dentro do templo de Minerva; a deusa cobriu o rosto com a égide e, para que o sacrilégio não ficasse sem castigo, transformou os cabelos da moça em serpentes. O castigo recai sobre a vítima, e leitores modernos não deixaram de notar isso. Em nossos dias, Medusa virou símbolo de mulheres que sobreviveram à violência e foram culpadas por ela.
A arte grega arcaica, porém, conhecia outra górgona. No frontão do templo de Ártemis em Corfu, esculpido por volta de 580 a.C., Medusa corre de joelhos dobrados, com olhos arregalados, língua para fora e presas, ladeada pelos filhos Pégaso e Crisaor. Apolodoro, na Biblioteca, ainda descreve as irmãs com cabeças cobertas de escamas de serpente, presas de javali, mãos de bronze e asas de ouro. Ao longo da época clássica e helenística, o rosto foi ficando mais humano e até sereno, e a górgona monstruosa cedeu lugar a um rosto belo e trágico.
Espelho, foice e sacola
Apolodoro conta a expedição de Perseu com detalhes de manual. Polidectes, rei de Serifos, que queria livrar-se do rapaz para ficar com sua mãe, Dânae, exige a cabeça da górgona. Guiado por Hermes e Atena, Perseu procura primeiro as greias, irmãs das górgonas que dividem um único olho e um único dente; ele toma os dois e só os devolve quando elas indicam o caminho até certas ninfas. Delas recebe sandálias aladas, a sacola chamada kíbisis e o capacete de Hades, que torna invisível quem o usa. Hermes lhe dá uma foice de adamante.
As górgonas dormem quando ele chega. Perseu olha apenas para o reflexo no escudo de bronze, Atena guia sua mão, e a cabeça cai. As irmãs imortais acordam e o perseguem, mas não conseguem vê-lo. A cabeça ainda servirá de arma várias vezes antes de terminar presa à égide de Atena. Ovídio acrescenta que, enquanto o herói sobrevoava a Líbia, gotas de sangue caíram na areia e viraram serpentes, e por isso aquela terra estaria cheia de cobras.
Sangue que cura, ramos que viram pedra
O sangue de Medusa tem dupla natureza. Segundo Apolodoro, Atena deu a Asclépio o sangue tirado das veias da górgona: o do lado esquerdo matava, o do lado direito salvava, e com ele o médico chegou a ressuscitar mortos. Eurípides, no Íon, põe nas mãos de Creúsa duas gotas desse sangue, uma que cura doenças e outra que mata. Os gregos tinham uma palavra para isso, phármakon, que significa ao mesmo tempo remédio e veneno e servia sobretudo para as ervas. Medusa, nesse sentido, morre como uma planta medicinal: perigosa e útil conforme a dose.
O coral de Ovídio completa a imagem. Vale ver como o poeta descreve o instante da transformação.
O ramo ainda fresco, de medula viva e sedenta, absorveu a força do monstro e endureceu ao seu toque, e sentiu nos galhos e nas folhas uma rigidez nova.
Ovídio, Metamorfoses (tradução nossa)
Há mais vegetação nesse mito do que parece. Píndaro, na décima segunda Pítica, conta que Atena inventou o aulós, a flauta dupla, para imitar o lamento agudo das irmãs de Medusa, e termina o poema lembrando os caniços que crescem junto ao rio Cefiso, de que se faziam os instrumentos. Pégaso, por sua vez, abriu com um coice a fonte Hipocrene, no monte Hélicon, onde as Musas iam beber. Da morte da górgona nascem, assim, um cavalo alado, uma fonte, uma melodia de caniço e um jardim de pedra no fundo do mar.
O rosto cortado, chamado gorgóneion, foi usado durante séculos para afastar o mal: em escudos, em telhas de templos, em moedas, em pisos de mosaico. Pausânias registra que, em Argos, os moradores mostravam um monte de terra perto da ágora onde estaria enterrada a cabeça da górgona. Uma cabeça que continua agindo depois da morte tem parentes na mitologia grega, como a de Orfeu, que desceu o rio cantando. E a deusa que a carrega no peito é a mesma da oliveira, uma das oito plantas de nosso catálogo.
Raízes antigas
- Hesíodo, Teogonia 270–283
- Píndaro, Píticas 12
- Eurípides, Íon
- Apolodoro, Biblioteca 2.4.1–3; 3.10.3
- Ovídio, Metamorfoses 4.604–803; 5.256–264
- Pausânias, Descrição da Grécia 2.21.5

